“Ele devia ressuscitar dos mortos” (Jo 1,9).

“Ele devia ressuscitar dos mortos” (Jo 1,9).

O Tríduo Pascal nos permite mergulhar nos Mistérios da Paixão, da Morte e da Ressurreição de Jesus Cristo. A Páscoa representa vida nova, significa que, a cada ano, temos a oportunidade de rever nossos passos e reencontrar os caminhos do Senhor.

Diante de uma forte “cultura da morte”, a Páscoa do Senhor é um convite a nos mantermos firmes na fonte que nos dá a vida, vida plena, vida abençoada, vida para todos, vida que gera vida. O texto tão antigo e tão profundo que na manhã do Sábado Santo refletimos aponta o sentido que nos inspira a viver todo o Tempo Pascal: “Eu te ordeno: Acorda, tu que dormes, porque não te criei para permaneceres na mansão dos mortos. Levanta-te dentre os mortos; eu sou a vida dos mortos. Levanta-te, obra das minhas mãos; levanta-te ó minha imagem, tu que foste criado à minha semelhança. Levanta-te, saiamos daqui, tu em mim e eu em ti, somos uma só e indivisível pessoa” (De uma antiga homilia do Sábado Santo, século IV). Temos, nesse trecho, uma imagem do sentido da nossa vida, de onde viemos e para onde vamos. Jesus Cristo, o Senhor da vida, nos revelou seu poder sobre a morte e nos resgatou da servidão do pecado e da condenação. Ele próprio, cheio de amor e de misericórdia, vem ao nosso encontro, estende sua mão e nos acorda para a verdade de quem realmente somos: sua imagem e semelhança. Sua vida, vivida e partilhada, nos caminhos da compaixão e da amizade, da compreensão e da cura, revela o imenso amor do Pai, que amou tanto o mundo que nos enviou seu Filho Unigênito para nos salvar (Jo 3,16). Vemos essa plena humanidade em cada encontro com Jesus, de Nazaré à Jerusalém, com aqueles que precisavam mais da graça de Deus: “(…) não são os que tem saúde que precisam de médico, mas os doentes. Não vim chamar os justos, mas os pecadores” (Mc 2,17). A vida de Jesus preenche as nossas lacunas e tudo ganha sentido. Somos irresistivelmente atraídos por essa Luz que brilha nas trevas de nossos corações.

Precisamos, de fato, despertar para fixarmos nosso olhar no olhar de Cristo, e nele sermos capazes de gerar vida nova. Ele também nos diz: “Levanta-te, obra de minhas mãos”, em um convite expressivo de liberdade e de missão. Se somos sua imagem e semelhança, devemos agir com a mesma dignidade de quem dá a vida por aqueles que ama. Levantar e sair de si mesmo é o ato mais importante do cristão que, impulsionado pela fé na vida de Cristo, leva a vida e a fé a todos os que encontra, anunciando a Boa-Nova a toda criatura (Mc 16,15). Despertar, levantar e se defrontar com uma realidade de morte e não se conformar com ela, mas entender que “Ele tinha que ressuscitar dos mortos” para nos provar que também nós somos portadores da mesma vida que gera vida, do mesmo amor ágape que não se retém, mas se doa totalmente.

Só Deus nos desperta para a verdadeira realidade de quem somos, só Ele nos levanta com sua força seu Espírito Santo para nos dar a dignidade de filhos e filhas de Deus e só Ele nos impulsiona a anunciar a Vida nova, cuja fonte é o próprio Filho, no qual nos tornamos filhos e filhas no Filho, membros de seu corpo místico que é a Igreja, discípulos e missionários da Palavra, do Pão e da Caridade. Vivamos como uma Igreja ressuscitada, em saída e cheia de misericórdia, estendendo seus braços para despertar e levantar todos os que mais precisarem.

Dom Ricardo Hoepers

Bispo da Diocese do Rio Grande (RS)

(Fonte: Igreja em Oração – ESPECIAL – SEMANA SANTA 2021)
By |2021-03-31T09:58:50-03:0031/03/2021|Artigos, Notícias gerais|0 Comments
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